Compartilho, com acolhimento e responsabilidade, o que vivi quando a vontade pareceu sumir durante o climatério — e os caminhos gentis que me ajudaram a reencontrar meu corpo e minha intimidade.

Foto (Acervo pessoal/universoelas)
Lembro do dia em que percebi que algo havia mudado. Não foi de repente, nem depois de um evento marcante. Foi aos poucos, como uma luz que diminui devagar sem a gente notar. Eu olhava para mim mesma e me perguntava: cadê a vontade que estava aqui? A vontade de me tocar, de me desejar, de me sentir viva no meu próprio corpo. Por um tempo, achei que fosse cansaço, que fosse só uma fase atribulada. No entanto, conforme o tempo passava, entendi que aquilo fazia parte de uma transformação maior: o climatério.
Falar sobre libido ainda é cercado de silêncio, especialmente entre mulheres que, como eu, cresceram ouvindo que desejo é assunto de jovem ou de quem “tem disposição”. Quando a vontade diminui, muitas de nós sentem culpa, vergonha ou a sensação de estar falhando com alguém e, principalmente , consigo mesma. Escrevo este relato justamente para quebrar um pouco desse silêncio, com a delicadeza que o tema merece.
Não escrevo para oferecer soluções mágicas nem prometer resultados. Compartilho o que vivi, o que aprendi com profissionais e com outras mulheres, e algumas orientações gerais que me ajudaram a olhar para essa fase com mais gentileza. Cada mulher tem uma história, um corpo e um contexto próprios, e o caminho de cada uma será sempre único.
Entendendo o que acontece com o corpo
Quando comecei a buscar entender o que se passava comigo, descobri que o climatério é uma transição natural da vida feminina, que antecede e envolve a menopausa. Nesse período, hormônios como o estrogênio e a testosterona diminuem gradualmente. Para mim, foi um alívio saber que a queda da libido não era uma falha de caráter nem um sinal de que eu havia “desistido” de algo era, em grande parte, uma resposta do meu corpo a mudanças hormonais reais.
Além disso aprendi que a redução do estrogênio pode trazer alterações como ressecamento vaginal, desconforto durante a relação e mudanças na sensibilidade. Esses sinais, muitas vezes invisíveis para os outros, pesavam dentro de mim. Por isso, quando a relação se torna desconfortável, é natural que o desejo diminua não por falta de amor, mas por uma resposta de proteção do próprio corpo.
Entender isso me ajudou a trocar a culpa pela curiosidade. Em vez de me cobrar, passei a me perguntar: o que meu corpo está tentando me dizer agora? Essa pergunta simples mudou a forma como comecei a me relacionar comigo mesma.
O peso das emoções e do cansaço
Nem tudo se explica pelos hormônios. Quando olhei com honestidade para minha rotina, vi o quanto eu estava cansada. Trabalho, casa, cuidados com os outros, preocupações que se acumulam ao longo dos anos. O desejo precisa de espaço, e eu estava vivendo sem deixar quase nenhum espaço para mim. a Nesse sentido, a libido, percebi, não mora apenas no corpo ela também se alimenta de descanso, de leveza e de momentos em que posso simplesmente ser.
Houve também questões emocionais mais profundas. Da mesma forma, mudanças na imagem corporal, o olhar que lançamos sobre nós mesmas à medida que o corpo se transforma, lembranças de relacionamentos, lutos, medos do futuro. Tudo isso conversa com a vontade. Quando me permiti olhar para essas camadas, sem pressa e sem julgamento, entendi que cuidar da libido também era cuidar da minha história emocional.
Comecei a reservar pequenos momentos só para mim: um banho mais demorado, uma caminhada sem destino, alguns minutos de respiração antes de dormir. Não foi uma virada imediata, mas, aos poucos, senti que voltava a habitar meu corpo em vez de apenas carregá-lo.

Foto (Acervo pessoal/universoelas)
Conversas que aproximam
Um dos passos mais difíceis, e também um dos mais libertadores, foi conversar. Primeiro comigo mesma, depois com meu parceiro. Por muito tempo, evitei o assunto porque temia magoar, temia ser mal interpretada, temia que ele achasse que eu não o amava mais. Mas o silêncio, descobri, pesa mais do que qualquer palavra cuidadosa.
Depois de algum tempo, quando finalmente falei, escolhi um momento tranquilo e comecei dizendo que aquilo não era sobre ele, mas sobre uma fase que eu estava atravessando. Expliquei que meu corpo estava mudando, que eu me sentia diferente e que precisava de paciência de mim e dele. Para minha surpresa, a conversa nos aproximou. O afeto, que parecia distante, voltou em forma de compreensão e cumplicidade.
Aprendi que a intimidade não se mede apenas pela frequência das relações. Um abraço demorado, uma conversa antes de dormir, um toque sem pressa: por exemplo, tudo isso também é intimidade. Quando ampliei meu entendimento sobre o que é estar próxima de alguém, o peso de “precisar querer” diminuiu, e o desejo encontrou espaço para voltar do seu jeito, no seu tempo.
Cuidados que me ajudaram no dia a dia
Não existe uma receita única, mas alguns cuidados fizeram diferença na minha experiência. O sono foi o primeiro. Quando comecei a priorizar noites de descanso de verdade, percebi que acordava menos irritada e mais disposta. O cansaço acumulado é um dos maiores inimigos da vontade, e eu havia subestimado o quanto ele roubava de mim.
Além do sono, movimento também entrou na minha rotina, sempre na medida do possível. Caminhadas, alongamentos e exercícios leves me ajudaram a sentir meu corpo de outro jeito não como algo que falha, mas como algo que ainda se move, que ainda sente prazer. A alimentação equilibrada, com proteínas, fibras e boa hidratação, complementou esse cuidado, trazendo mais energia para o dia.
Em relação ao desconforto físico, conversei com minha ginecologista. Existem opções, como lubrificantes e tratamentos locais, que podem tornar a relação mais confortável. Não tentei resolver tudo sozinha, e isso me poupou de sofrimento desnecessário. Quando o corpo é acolhido, a mente também se acalma, e o desejo encontra um terreno mais gentil para reaparecer.
Reencontrando o próprio corpo
Um aprendizado que guardo com carinho é que a libido também nasce da relação que tenho comigo mesma. Por muito tempo, me olhei no espelho e vi apenas o que havia mudado, o que parecia diferente. Um dia, decidi tentar me olhar de outro jeito com os olhos de quem agradece, em vez de cobrar. Foi um exercício pequeno, mas poderoso.
Comecei a me tocar com gentileza, sem pressa e sem objetivo. Uma hidratação após o banho feita com atenção, um momento de respiração com as mãos sobre o ventre. Esses gestos me ensinaram que o prazer não precisa ser grande nem dramático para existir. Ele pode morar em detalhes, em sensações simples, em voltar a habitar a pele que tenho.
Também percebi que me dar permissão para não querer, quando é isso que sinto, é uma forma de cuidado. A vontade não é uma dívida que preciso pagar. Quando parei de me cobrar, o desejo deixou de ser uma obrigação e voltou a ser uma possibilidade algo que pode surgir, e não algo que precisa acontecer.
Quando é hora de buscar apoio
Em alguns momentos, percebi que sozinha não dava conta. Por esse motivo ,quando a falta de vontade vinha acompanhada de tristeza profunda, ansiedade ou desânimo que se estendia por semanas, entendi que era hora de buscar ajuda. Não há fraqueza em pedir apoio — há coragem. A saúde emocional e a saúde sexual caminham juntas, e ambas merecem atenção profissional.
Conversei com médicos, com uma terapeuta e, em algum momento, considerei a importância de abordar o tema de forma integrada. Cada profissional contribuiu com uma peça do quebra-cabeça. Para algumas mulheres, a terapia hormonal pode ser uma opção; para outras, o acompanhamento psicológico faz toda a diferença. O importante é não se conformar com o sofrimento quando existem caminhos de cuidado.
Se você se reconhece nesse relato, minha sugestão é levar suas dúvidas e seus sentimentos a quem pode acolhê-los com conhecimento. Foi no cuidado compartilhado que encontrei segurança para fazer escolhas e leveza para me aceitar.

Foto (Acervo pessoal/universoelas)
Conclusão: a vontade que volta do seu jeito
Assim, hoje vejo o climatério não como o fim de algo, mas como uma passagem. A libido que parecia ter sumido não voltou exatamente como antes — e tudo bem. Ela voltou diferente, mais silenciosa em alguns dias, mais presente em outros, mas sobretudo mais verdadeira. Aprendi a não comparar minha vontade de hoje com a de outros tempos, porque cada fase tem seu próprio ritmo.
O que mais me ajudou foi trocar a cobrança pelo acolhimento. Quando parei de exigir de mim o que eu não conseguia dar, comecei a encontrar, em pequenos gestos, o desejo que eu julgava perdido. No descanso, na conversa, no toque sem pressa, no cuidado com meu corpo e com minha história, a vontade foi reaprendendo o caminho de volta.
Compartilho isso porque acredito que toda mulher merece viver essa fase com informação, acolhimento e autonomia sobre o próprio corpo. Não há pressa, não há modelo certo, não há prazo. Existe apenas o seu tempo — e ele merece ser respeitado. Se este relato despertou dúvidas, leve-as a quem pode cuidar de você com conhecimento e gentileza.
Aviso importante
Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educativo, baseado em uma experiência pessoal. Ele não substitui a orientação, o diagnóstico ou o tratamento de médicos, psicólogos ou outros profissionais de saúde. Cada mulher tem necessidades e histórico próprios — antes de fazer mudanças significativas ou iniciar qualquer tratamento, procure acompanhamento profissional individualizado.